j. mombaça, eusou outro, lobo errático, espaço vazio puro, [ ] , *óperas silenciosas, tímpanos estilhaçados*

domingo, 8 de janeiro de 2012

"El fenómeno del 'secreto a voces', como se podria pensar, no provoca el desmoronamiento de estes binarismos (privado/público, sujeto/objeto, dentro/fuera,...) y sus efectos ideológicos, sino que constata su fantasmagórico restablecimiento." D. A. Miller, "Secret Subjects, Open Secrets", The Novel and the Police, p.207.


A nudez do feio

Passa pela compreensão do corpo como célula política (poder-corpo) uma pragmática da exposição como rasgo da paisagem normativa que nos quer servir de céu absoluto, como não conformação aos limites que nos são oferecidos pelas normatizações dominantes, da transposição das fronteiras que, apesar de delimitadas à revelia de nós, produzem interditos experimentados cotidianamente em nosso próprio corpo. Se há um tipo de poder movido no sentido de fazer público o que "é de ser público" e relegar ao privado aquilo com que a sociedade "não pode/deve/consegue" conviver, há, em contraponto, posturas (micropolíticas) que miram a superação desses (micro)fascismos que ensejam conceder visibilidade a práticas dominantes e buscam, por meio de teias invisíveis, negar existência às práticas ditas desviantes.

Nos tempos da hiperrealidade, onde corpos esculpidos em computador figuram como tipo ideal de beleza - hipérboles inalcançáveis - e objetivo que norteia a vida paranóica de gente desesperada que se violenta para conseguir ter (comprar) esse corpo (hiperreal) construído em photoshop ou em clínicas de cirurgia plástica, há cada vez mais corpos "imperfeitos" para os quais a beleza é negada. A esses corpos restaria o confinamento, a não exposição. Pergunte a qualquer entendido de moda e ele lhe dirá: um gordo bem vestido é aquele que dissimula, ao máximo, o fato de ser gordo.

Tenho 20 anos, quase 1.80 e mais de 120kg. Eu já nasci grande e pesado, e desde sempre adoro comer e por isso me mantive pesado, apesar da coerção insistente de minha família (a polícia do lar) para que eu adequasse meu corpo ao paradigma estético e saudável vigente. Meu corpo é um corpo doente (obeso), estranho e feio. Lembro de quando, aqui em casa mesmo, não sei se em tom de briga ou de chacota, minha irmã mais velha sugeriu que eu, sendo como sou (ou para ser mais exato, como aparento ser), me trancasse em meu quarto e não saísse mais. Absolutamente não odeio minha irmã por isso, e hoje em dia até convivo muito bem com minha família, mas não posso deixar de observar a ressonância de um discurso normativo, arbitrário e fascista impregnado à forma como fui, ao longo da adolescência, "no seio do lar", constrangido a adotar para mim uma dieta para efeito de controle de peso - e, nas sublinhas, para efeito de controle da minha própria vida.

Não expor esse corpo (doente, estranho e feio), mantê-lo trancafiado no quarto (armário), seria uma escolha, ao mesmo tempo que mais confortável para mim (todo armário como que nos oferece certa segurança), mais confortável para o padrão, que permaneceria intacto. Mas eu tenho um corpo que vibra, que sente, que pulsa, um corpo cujas vísceras gritam, um corpo que não se conforma, que não aguenta mais as coerções às quais tem sido submetido, um corpo que quer expor sua nudez, sua sinceridade e seu desvio, um corpo que quer desmantelar, em sua própria experiência, aquilo que a sociedade tem querido fazer dele.

A nudez do feio é, sobretudo, uma forma de posicionamento político, onde o que está em jogo é a liberdade de não ter de esconder-se, de não ter de dissimular o próprio corpo em favor de uma hiperrealidade inalcançável. O corpo informe que se apresenta a uma platéia insensível, que se expõe em sua fragilidade, que opera rasgos no horizonte e que desenha na cena sua irregularidade, sua imperfeição, sua inadequação. É o corpo que sai do armário para, nesse processo, inscrever sua beleza insuspeitada na hiperrealidade feia da paisagem photoshopada, lipoaspirada, siliconada, maquiada e paranóica.

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Michel Foucault. "Poder-corpo", em Microfísica do Poder.

Eve Kosofsky Sedgwick. "Epistemología del Armário", em Epistemología del Armário.

Peter Pál Pelbart. Vida nua, vida besta, uma vida.

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